YOGA, POSTURA E CONDUTA
- Marcelo Augusti

- 9 de dez. de 2025
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Asana é uma escada para a libertação, uma forma de escapar da morte e muito mais, pois permite que a mente se retraia da ilusão e se ligue ao Ser Supremo (Gorakshashtaka, 2).
As posturas físicas pertencem ao rol das técnicas de meditação do yoga. O iogue utiliza-se de diversas posturas físicas para obter controle sobre o corpo e domínio da mente.
Essas posturas, em geral, são denominadas asanas. De origem sânscrita, asana significa “assento”. Mas nem todas os asanas são realizados de modo sentado.
Em sua origem mítica, os asanas são atribuídos a Shiva, que ensinou-os à Parvati, sua consorte. Sua principal atribuição é manter o corpo quieto para que da mente emerja o silêncio e a serenidade.
A exigência dos asanas é que se mantenha uma postura perfeitamente estável e que seja, ao mesmo tempo, firme e confortável, para que se possa permanecer em estado meditativo por um longo tempo.
Dominar um asana, portanto, significa ser capaz de manter o corpo em perfeita quietude, a ponto dele se esquecer. Os asanas, assim, são as preliminares da prática do yoga para o alcance do estado meditativo profundo, o samadhi.
É da harmonia entre a quietude do corpo com a serenidade da mente que a consciência retira-se do “mundo exterior” para adentrar o “mundo interior”. Então, esta “consciência ordinária”, voltada às coisas do “mundo de fora”, revela-se em sua plenitude como a “consciência infinita e ilimitada”.
Nos comentários do Swami Satchidananda na obra Os Sutras do Yoga de Patanjali (1978), o guru afirma que asana é a prática do yoga que livra-nos de todas as toxinas, estas que deixam o corpo rígido e a mente embotada.
As toxinas são originadas tanto da ingestão de alimentos errados, em horário impróprio ou em grande quantidade, quanto dos incessantes pensamentos automáticos que, por sua repetição incontrolável, geram medo, angústia, insegurança ou apatia, provocando tensão e degradando a vida humana.
Como parte fundamental do Hatha Yoga, os asanas mantém o corpo forte e flexível, saudável e livre de qualquer tensão física e psíquica. Afirma Satchidananda:
A não ser que o corpo esteja completamente saudável e livre de todas as toxinas e tensões, uma postura confortável não será obtida com facilidade. Toxinas físicas e mentais criam enrijecimento e tensão. Qualquer coisa que pode enrijecer-nos pode também quebrar-nos. Entretanto, se nos mantivermos flexíveis jamais quebraremos. Assim, no momento em que nos sentarmos com tal corpo para meditação, nós o esqueceremos. A fim de conseguirmos tal postura meditativa, podemos exercitar muitas poses culturalmente adotadas como preliminares.
O que se busca com o asana é a capacidade de manter-se firme e, ao mesmo tempo, relaxado, para que, então, no silêncio, se possa contemplar o Ser. Este silêncio, isto é, a ausência de comunicação com o “mundo exterior”, é a própria presença do Divino em cada um de nós.
Quando os asanas são destituídos de sua base espiritual e filosófica, eles se tornam apenas um conjunto de exercícios físicos que, geralmente, são praticados em clubes e academias de ginástica.
Como mero exercício físico, na maioria das vezes, servem apenas como exibicionismo por praticantes vaidosos e prepotentes, e por aqueles que não compreenderam a essência dos asanas. A esse respeito o Hatha Yoga Pradípiká nos instrui:
Um iogue ansioso pelo sucesso deve manter o conhecimento do Haṭha Yoga em segredo; pois se torna potente escondendo-o e impotente expondo-o (HYP, 1, 11)
O Hatha Yoga Pradípiká é um manual clássico do século XV sobre o Hatha Yoga, escrito por Swamin Svātmārāma, que estabeleceu suas bases teóricas e sua prática. Nesta obra, o adhikarin (candidato à prática de Hatha Yoga), deve apresentar algumas qualificações para ser aceito pelo guru. São elas: estar livre de motivos e apegos pessoais; estar avançado em Yama e Niyama (ética e moral); e cultivar a inteligência por meio do estudo.
E como já dito, quando destituídos de sua essência, os asanas acabam por ser inseridos em práticas típicas dos sistemas de exercícios físicos do Ocidente, onde força, velocidade, flexibilidade, muitas repetições e até sequências coreografadas lhes são acrescentados como fatores principais.
Mas não podemos dizer que isso não é yoga; todavia, também não podemos dizer que isso é yoga. A cada pessoa, em seu próprio estudo e discernimento, cabe observar e analisar, de modo criterioso, o que é e o que não é yoga, para que serve e para que não serve os asanas.
Fato é que Yoga é autoconhecimento. O autoconhecimento se faz pela investigação de si mesmo, e das motivações que nos ao yoga. Conhecer a si mesmo, quando se fala em yoga, é ampliar e aprofundar a consciência em busca da autorrealização espiritual, ou seja, tornar-se um ser humano melhor hoje, do que aquele de ontem.
Conhecer a si mesmo é adentrar o “mundo interior”. O autoconhecimento, portanto, é fruto da introspecção. Ele se distingue do conhecimento do “mundo exterior”, pois não depende de evidências. O autoconhecimento se faz por uma percepção direta daquilo que não se manifesta fora, mas que pode ser percebido claramente dentro.
Conhecer-se a si mesmo, portanto, é um privilégio único, pois aquilo que não se revela aos ‘olhos de todos’, pode ser visto direta e unicamente, somente por aqueles que se entregam, com sincera devoção, a uma busca genuína.
Quando ‘conheço a mim mesmo’, tenho acesso ao Ser, que é o mesmo Ser que habita em você. Porém, por mais que eu te fale, você não o conhecerá; somente poderá conhece-lo por si mesmo.
Se isso não fosse verdade, bastaria apenas um Cristo que para nos esclarecer sobre a Verdade Suprema. Um Cristo Autorrealizado seria suficiente para iluminar todos os corações e perpetrar a paz, o amor e a felicidade entre os seres humanos.
Mas um Cristo, um Buda, um Laozi, um Sankara e tantos outros mestres autorrealizados que passaram pela Terra, ainda não foram suficientes para que os ensinamentos da Verdade Suprema, aos quais eles nos transmitiram, sensibilizassem a todos os seres humanos de todas as épocas.
O yoga nos libera do engano e do autoengano. O engano é um tipo particular de relação entre dois seres vivos – uma interação no qual o comportamento de um deles cria uma discrepância entre realidade e aparência, e que deturpa as percepções e modifica as ações do outro.
O autoengano é o processo de negar, racionalizando, as evidências opostas e os argumentos lógicos que contrariam tudo aquilo que não concordo. Diz respeito a convencer-se de uma mentira para que aquilo ao qual compactuo / acredito, não se revele como falsidade.
O engano é interpessoal; o autoengano é intrapessoal. Quando engano alguém, é porque acredito que levarei alguma vantagem sobre o outro. Mas quando “engano a mim mesmo”, qual a vantagem disso?
Na obra de Eduardo Gianetti, o Autoengano (2005), o autor nos fala sobre as mentiras que contamos a nós mesmos para podermos sustentar as nossas crenças pessoais. Gianetti afirma que sem o autoengano, a vida seria desprovida de encanto. Porém, diz o autor, entregues ao autoengano, perdemos a dimensão do sofrimento que causamos a nós mesmos e aos outros.
O autoengano, portanto, não é como nos relacionamos com o outro; trata-se de modo como nos relacionamos com nós mesmos. Porém, se o engano não pode ir muito longe (não é possível enganar a todos o tempo todo), o autoengano pode se perpetuar, pois depende unicamente da disposição pessoal para a tendência à mentira e ao pensamento egocêntrico.
Retornando à questão dos asanas e do autoconhecimento:
A execução de um asana nos mostra tanto as dificuldades do corpo em manter-se, como os obstáculos da mente para permanecer concentrada. Ao mesmo tempo, o asana é um instrumento que nos propicia a correção dos aspectos que podem ser superados, aceitos ou que não podem ser mudados.
Assim, entendemos que alguns asanas exigirão determinada condição física que, refletindo-se na condição mental (ou vice e versa), por mais que nos esforcemos, não alcançaremos a realização.
Insistir em um ‘modelo perfeito’ de asana também não significa alcançar a perfeição no yoga. Pois a perfeição no yoga está na percepção correta das próprias dificuldades e limitações, e não em ‘superar a todo custo’.
A busca pela ‘perfeição na aparência’ é apenas vaidade, e pode custar caro à saúde física e mental. Por outro lado, acomodar-se a uma postura que não mais exige qualquer concentração, é ‘fazer por fazer’.
A execução correta de um asana, seja ele qual for, portanto, é aquela que nos mantém atentos e concentrados, nos conduz à introspeção, e nos assenta na contemplação do Atman, o Um Absoluto, onipresente. Como inscrito na Canção do Asceta (Avadhuta Gita): “Eu próprio sou o contemplador e o mais elevado contemplado”.
A prática de asana, portanto, é autoconhecimento. O domínio pleno de apenas um único asana é o que basta para adentrar pelas portas da consciência não-dual. Esta consciência não-dual é o Atman, imortal, imutável e destituído de todo ou parte, o Ser, aquele que se conhece como o Infinito e Ilimitado.
É este Atman, que permeia todo o espaço e que não pode ser percebido externamente pelos sentidos, mas apenas compreendido pelo espírito introspectivo, que o sábio colhe a infinita e eterna bem-aventurança que reside, desde o princípio, nele mesmo.
Quando, pela prática de asana, o iogue despe sua consciência de todas as noções de dualidade, e se funde no Espírito Supremo; em tal “estado de ser”, isto é, imerso na contemplação do Si Mesmo, ele está isento da ignorância, do egoísmo e do sofrimento.
O modo como praticamos asanas, portanto, diz muito sobre a nossa conduta pessoal, nosso comportamento cotidiano e nossas atitudes diante da vida; o asana expõe o nosso caráter e revela-nos se estamos na busca sincera pelo autoconhecimento ou atolados no autoengano.
Um asana, assim, desmascara nossa vaidade e prepotência, e evidencia a nossa fraqueza interior; ou, pelo contrário, expressa a nossa seriedade e compromisso com a verdade daquilo que o yoga é em sua mais elevada compreensão.
Yoga é postura e conduta. Estude, pratique. Mas faça agora!
Hari Om Tat Sat.
O iogue é uma pessoa capaz de analisar de maneira crítica e isenta a realidade em que vive. Ele não mistifica, não se ilude e nem ilude os demais e, principalmente, não perde tempo em tarefas de duvidosa eficiência. A responsabilidade do praticante sério está em assumir para si a tarefa de discernir, e ajudar os demais a discernirem, o que é Yoga do que não é Yoga. O que é autoconhecimento do que é autoenganação (Pedro Kupfer)




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