top of page

YOGA E O FLUXO NATURAL DA VIDA

  • Foto do escritor: Marcelo Augusti
    Marcelo Augusti
  • há 3 dias
  • 7 min de leitura
ree

Enquanto houver uma projeção subjetiva no ato da percepção, não haverá a reunião de fatos verdadeiros, nem um olhar para os fatos sem interpretação. Qualquer percepção interpretativa nos impede de ver as coisas como de fato são. Se a percepção da realidade é imperfeita, então, qualquer ação que emana de tal percepção, estará fadada ao erro (Rohit Mehta)


Yoga é um estado constante de fluxo e adaptação. Se compreendermos que a vida em si é um fluxo contínuo, um ir-e-vir ao qual sempre temos que nos ajustar às circunstâncias, então, compreenderemos o que é o yoga.


Esse padrão vital – fluxo e adaptação – não se repete apenas na realidade do mundo físico. Ele também se repete, continuamente, em nosso mundo interior: basta observarmos os nossos próprios pensamentos, e perceberemos claramente como surgem e desaparecem por si mesmos.


Assim, tanto em relação ao mundo físico quanto ao nosso próprio mundo psíquico, se faz necessário aprender a nos ajustar e se adaptar continuamente ao fluxo da vida e dos pensamentos, conforme as coisas acontecem, nascem e morrem, surgem e desaparecem.


Qualquer tentativa de alterar esse fluxo vital, barrando ou acelerando sua naturalidade, seja tentando segurar o momento para dele aproveitar-se mais ou manipulá-lo para nos livrarmos de prejuízos, nos trará apenas o sofrimento.


O que o fluxo da vida nos ensina e o yoga nos exorta a aprender, é que as experiências vividas se encerram no momento em que acabam. Ou seja, a experiência de saborear um alimento, por exemplo, deve se encerrar assim que o alimento termina. Parece óbvio isso. Mas não é.  


Na maioria das vezes, e isso é praticamente um hábito que não percebemos, é tentar prolongar as experiências vivenciadas, seja elas na realidade física ou psíquica. Assim, nem sempre as experiências se encerram quando terminam.


O hábito não percebido de prolongar e reviver o que se passou, é uma ilusão da mente. Essa ilusão é originada do conteúdo dos nossos registros psíquicos, isto é, de nossa memória afetiva. Memória é o arquivo mental onde todas as experiências vividas são impressas como registros de nossa vida. E a memória afetiva é a base psíquica de nossos sentimentos e de nossas emoções.


É essa memória afetiva, formada por sentimentos e emoções, que nos instiga a ilusão de controle da realidade, isto é, de que podemos parar ou acelerar o fluxo vital, seja para prolongar o prazer ou evitar a dor.  É essa ilusão de controle que nos impede a visão correta do padrão vital da existência – fluxo e adaptação.


Se as experiências da vida nos deixam marcas – agradáveis ou dolorosas – se nos agarramos a elas, e com elas nos identificarmos, por fim, nos tornamos elas. No yoga, acredita-se desde tempos imemoriais, que uma pessoa se torna, exatamente, naquilo em que mais pensa.


Logo, os pensamentos aos quais nos fixamos, aqueles que mais surgem e se repetem na consciência, são os que direcionam a nossa conduta e, como consequência, nos levam a ser quem somos. Portanto, cada pensamento é uma ação em potencial e, mais do que isso, uma realidade que poderá se manifestar.


No primeiro livro do Yogasutras, Patanjali afirma que “yoga é a pacificação dos estados mentais” (YS, I, 2). Como foi visto, é na memória que se estabelecem as marcas das experiências vividas. E caso não entendermos os processos mentais que impulsionam a formação dos nossos hábitos, não seremos capazes de compreender aquilo que somos.


Esse processo, todavia, é muito simples: é natural que nossas experiências de vida mais relevantes – de prazer ou dor, não importa – fiquem registradas na memória e nos sirvam como referências; assim como é natural que, a partir desses arquivos, surjam pensamentos que nos tragam, à consciência, as lembranças e recordações desses registros.


Mas a questão em si, não são as lembranças ou recordações dos eventos resgatados pelos pensamentos: é a intensidade do colorido que damos a eles, quando os carregamos de emoções ou sentimentos, na ânsia de querer revivê-los ou deles nos afastarmos.


É esse envolvimento emocional que afeta a nossa percepção clara do fluxo da vida, e impacta o nosso comportamento, quando, então, passamos a julgar e interpretar as coisas conforme as marcas deixadas em nossa memória. Ou seja, a intensidade das emoções e sentimentos que acoplamos aos pensamentos, é o que nos faz ver as coisas não como elas são, porém, como queremos que elas fossem.


A vida é o ir-e-vir de coisas que nos agradam e coisas que nos desagradam. Esse é o seu fluxo natural. A cada ser cabe ajustar-se aos eventos que se sucedem, adaptando-se às novas circunstâncias que a vida traz.


Ajustar-se as circunstâncias significa compreender que nada, em si ou por si, é bom ou ruim. Quem julga que é bom ou ruim é o conteúdo da memória, isto é, os pensamentos. Mas o pensamento, assim como a vida, é apenas um fluxo ininterrupto, que nunca cessa. Tão transitórios e impermanentes quanto as coisas da vida, assim são os pensamentos.     


O yoga nos conduz ao estado de “mente pacífica”. A “mente pacífica” é a mente em seu estado original. É quando damos colorido e intensidade aos pensamentos, que a mente se agita, se perturba, e perdemos a “clareza da consciência”. Patanjali nos alerta que “quando os fatos são encobertos com as projeções e imposições dos pensamentos, a irracionalidade domina o comportamento” (YS, I, 8)


É assim que confundimos o que é a realidade (“as coisas como elas são”), pois as projeções mentais (isto é, o que julgamos e interpretamos como “realidade”, conforme os registros da memória), que dão contornos a um “mundo” que apenas existe em nossos próprios pensamentos.


Quando os pensamentos se carregam com o colorido das emoções e sentimentos, perdemos a capacidade de discernir entre o verdadeiro e o falso. E se o fluxo da vida não nos traz “coisas agradáveis”, nosso comportamento torna-se reativo, e ao fluxo respondemos com ressentimentos, mágoas e desejo de vingança.


Assim, o mundo exterior – o mundo onde as experiências são vividas – se confunde com as projeções do mundo interior – nossos pensamentos, emoções e sentimentos – transformando a nossa jornada terrena em um intrincado labirinto de falsidades e sofrimentos, as quais nos identificamos e tomamos como “a realidade”. Fazemos do mundo exterior uma extensão do nosso mundo interior.


É fácil de entender, portanto, que a vida particular de cada pessoa nada mais é do que um reflexo dos seus conteúdos mentais e, mais do que isso, do modo como ela se relaciona com seus pensamentos, permitindo ou não que emoções e sentimentos tentem controlar o fluxo natural da vida. São essas tentativas de controle do fluxo vital que se tornam um entrave à felicidade.


Pois, ao não aceitarmos as “coisas como elas são”, e tentarmos mudar o mundo exterior para que ele se adapte aos nossos interesses particulares e egoístas, é que percebemos que não temos nenhum controle sobre a vida, que elas nos “escapa pelos dedos”. E isso nos desespera, causa ansiedade, e nos leva à angústia e ao sofrimento.


A mente, portanto, é responsável tanto pela sensação de felicidade, quanto pela sensação de sofrimento em nossas experiências de vida. Não há atividades prejudiciais, externas ou internas, que não estejam associadas à mente. Sua estabilidade é o caminho para uma vida feliz. E o yoga nos proporciona a estabilidade mental e, como consequência, o desfrutar de um corpo saudável e pleno em suas possibilidades de realização. 


Diz Patanjali, no Yogasutras: “a dissolução dos hábitos e tendências reativas da mente é alcançada pela prática constante e pelo desapego” (YS, I, 12). Abhyasa (prática constante) e Vairagya (desapego), são os dois pilares básicos do yoga que nos possibilitam superar os hábitos, as identificações e as tendências adquiridas, e que fazem da mente um turbilhão de pensamentos e emoções.


Abhyasa é entendido como o esforço para permanecer firmemente estabelecido no estado de mente pacífica. É o esforço com o propósito de permanecer livre de todas as tendências reativas da mente. Trata-se de uma prática ininterrupta e determinada.


Vairagya é não se permitir levar pela tentação do prolongamento psíquico das experiências vividas. É uma condição livre de expectativas e motivos, “sejam aqueles que surgem de um desejo por alguma coisa que tenha sido experimentada ou por algo que ainda não foi experimentado” (YS, I, 15).


Abhyasa e Vairagya é o que nos leva ao pleno discernimento entre os elementos verdadeiros da realidade objetiva (o fato em si) e a “realidade” originada de nossos julgamentos e interpretações, que construímos e tentamos consolidar com nossas muitas narrativas.


Tanto abhyasa quanto vairagya são frutos da atenção plena ou sati.  Esse termo significa “estar plenamente consciente do momento presente”. Satipatthana é a prática de observar atentamente a inconsistência dos estados mentais. Observar os pensamentos, e o que deles emerge, sem neles se fixar, sem neles interferir. Apenas observá-los, permitindo que eles surjam e passem, como as nuvens, por si só.


Para observar o fluxo da vida, assim como os pensamentos, temos que permanecer em uma postura de quietude e silêncio. É assim que poderemos "ver claramente" não apenas a natureza da mente, mas também a vida e seu fluxo natural. O yoga nos ensina que a única atitude correta, portanto, é observar atentamente, testemunhar e deixar ir. Quando assim aprendermos a fazer, saberemos quem, de fato, somos.


Hábitos, identificações e tendências adquiridas constituem a nossa “falsa natureza”. Enquanto houver hábitos e tendências, não haverá yoga. Esta é a verdade. Pois yoga é a dissolução definitiva dos centros de informação adquiridos, e que comandam o nosso comportamento, sem que o percebemos claramente, obstruindo-nos a visão da Realidade.


Quando a consciência vivencia os fatos da vida, e as experiências vividas não ficam impregnadas com as associações psicológicas (pensamentos, emoções e sentimentos), então, a vida será apenas uma experiência plena da existência, sem nada a se julgar ou interpretar. Observar, fazer o que tem que ser feito com sabedoria e compaixão, conforme a necessidade que se apresenta no momento e, então, deixar ir e apenas ser a testemunha imutável - eis o yoga e sua prática!


Yoga é o que extingue todas os hábitos e tendências adquiridas. É o que nos possibilita inovação, criatividade e a experiência contínua do frescor da existência. Yoga é a integração plena entre o mundo interior e o mundo exterior.


Yoga, você já sabe: estude, pratique.


Hari Om Tat Sat.


Se a consciência se fixa nos pensamentos (que surgem e cessam em um momento), então, a mente se agita, e não há paz interior. Inúmeros são os pensamentos, e se buscas a tranquilidade, não se envolva com nenhum deles. Pois são os pensamentos recorrentes e sua fixação, que originam e reforçam os hábitos e tendências que arruínam a serenidade e a harmonia. Esteja sempre atento ao ir-e-vir dos pensamentos, permanecendo estabelecido na equanimidade; e seja apenas a testemunha da vida, o que você realmente é (Yoga Vashistha)

Comentários


©2022 por Sotapanna Yoga. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page