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YOGA E ENVELHECIMENTO

  • Foto do escritor: Vanice Jeronymo
    Vanice Jeronymo
  • 5 de out. de 2022
  • 8 min de leitura

Embora seja recomendada aos idosos, a prática milenar de origem indiana faz parte do grupo de atividades físicas indicadas a qualquer tipo de pessoa, sem limitação por idade, sexo, peso, biotipo


O que significa envelhecer? Quando envelhecemos? Para a Convenção Internacional que versa sobre a Proteção dos Direitos Humanos das Pessoas Idosas a pessoa se torna idosa quando atinge a idade de 60 ou 65 anos (variação conforme o país no qual reside). No mesmo documento, o termo velhice, está relacionado com os aspectos históricos, sociais e culturais da população mundial; e envelhecimento é compreendido como o fenômeno gradual e contínuo, que decorre de fatos universais e imprevisíveis que se passam ao longo da vida e que implicam nas diversas alterações orgânicas do corpo humano.


Nesse contexto ocorre o desenvolvimento humano e este se caracteriza como o processo composto por diferentes fases pelas quais todos irão atravessar até que a vida seja interrompida pela morte. As fases de desenvolvimento são, portanto, hierárquicas e irreversíveis, ou seja, seguem uma ordenação na qual não se poderá pular, voltar ou eliminar estágios e em algum momento o indivíduo poderá adentrar a fase de desenvolvimento que se convencionou chamar velhice.


Ainda que cada um sinta de forma diferente as etapas do desenvolvimento, geralmente, são os aspectos cronológicos, sociais e corporais - caracterizados pela idade, restrições sociais, mudanças estéticas e funcionais do corpo ou surgimento de doenças - que costumam indicar a chegada da maturidade, da terceira ou da melhor idade, termos frequentemente utilizados, embora discutíveis. A percepção de preconceitos e de dificuldades para acessar locais e atividades públicas também poderão configurar evidências da chegada do momento. Mas, envelhecer é um processo complexo que emerge de realidades próprias e por isso, não deve ser generalizado ou classificado a partir de um único indicativo, como se faz ao enquadrar o indivíduo na categoria de acordo com sua idade cronológica.


O envelhecimento biológico se inicia a partir do nascimento e é considerado um fenômeno espontâneo, gradual e natural. Entretanto, quando se alcança a chamada meia-idade - entre os 30 e 59 anos, de acordo com OMS* - a aceitação do fenômeno como tal se modifica em muitas partes do planeta. Nas sociedades nas quais a valorização do novo em detrimento do velho é cultuada, busca-se o viver mais, alcançar idades prolongadas sem que se pareça velho. Está posto o paradoxo: longevidade com negação da velhice.


Esse comportamento está vinculado à noção de velhice como decadência, decrepitude, caduquice. Mas, há de se considerar dois conceitos importantes que podem ser aplicados, ainda que generalizados, para a compreensão do envelhecimento biológico: a senilidade e a senescência. A senilidade é caracterizada pela mudança gradual no processo de envelhecimento associada às diferentes patologias, dentre as quais são frequentes os problemas decorrentes das doenças infecciosas, das doenças crônicas, neurológicas e de saúde mental. A senescência é a mudança gradual e natural dos processos biopsicossociais do envelhecimento, na qual as transformações ocorrem ao longo do tempo e não têm relação com princípios patológicos, ou seja, é o envelhecimento saudável.


As mudanças a serem enfrentadas nesse período, seja de ordem física ou psicossocial, trazem consigo vulnerabilidades que acometem os indivíduos. Perdas de vigor físico, de saúde e de vida social estimulam a emergência de sentimentos como insegurança, tristeza e ansiedade. Quando exacerbados os sentimentos exigirão esforços do indivíduo para não se tornarem patológicos e possibilitarem a entrada da depressão. Os leitores que já acompanharam o envelhecimento de alguém, identificarão facilmente esse percurso. A cada dia se observa uma perda, seja física, emocional ou mental. Mobilidade física, cognição e convívio social são drasticamente reduzidos, enquanto se multiplicam as dificuldades para lidar com tudo isso.


Se o processo é espontâneo, natural e irreversível, por que ficamos tão impactados quando nos deparamos com as mudanças físicas e psicossociais? E por que é tão difícil mudar os hábitos nesse momento? As respostas às perguntas podem ser muitas, mas algumas podem ser encontradas nos estilos de vida que levamos ao longo da vida até a chegada desse momento. Passamos mais da metade do tempo da nossa existência em ambientes não adequados ao processo de vida como um todo e, da mesma forma, não nos dedicamos aos cuidados do corpo, mente e espírito com a consideração sincera da chegada da velhice. Vejamos uma metáfora: vamos imaginar que nossas casas, assim como já ocorre em alguns países, fossem construídas integralmente par a chegada da velhice, independentemente de estarmos ou não nessa fase. Então, ainda jovens, habitaríamos casas equipadas com barras de segurança, portas largas, rampas e corrimãos. Quando o momento exigir o reforço da segurança com os equipamentos, eles já estarão lá, e assim, não seríamos surpreendidos pela ideia do ficar velho e pela necessidade abrupta de adaptação. Apenas, vida que segue. Assim, poderemos agir em outros campos da vida até que a velhice nos encontre. Podemos preparar corpo, mente e espírito para esse momento, e naturalmente, a vida seguirá seu rumo.


Ainda que mentalidades renovadas estejam tentando instituir novos hábitos à população, em geral, tomamos consciência das coisas quando nos sentimos expostos, excluídos ou limitados, inclusive quando não há mais tempo para remediar tudo isso. Então, as mudanças de atitude costumam ocorrer de forma repentina e contra o relógio. Ficamos em choque, perdidos com as proibições que o novo estilo de vida irá nos impor se quisermos conservar um pouco de saúde. Nesse processo poderemos ser invadidos por sensibilidades, tristezas, inseguranças e facilmente iniciarmos o ciclo vicioso composto por desconfortos, medicamentos e pioras no nosso estado físico e mental.


Para seguirmos pelo caminho da senescência, ou seja, do envelhecimento saudável, podemos contar com algumas estratégias que visam contribuir na prevenção e promoção da saúde, sem recorrermos à sobrecarga e dependências químicas (medicamentos) ou passarmos pelo sobressalto das mudanças. Estamos nos referindo às Práticas Integrativas e Complementares à Saúde (PICS) compostas por tratamentos alternativos viáveis e fundamentados em recursos terapêuticos. No Brasil, são várias as terapias disponíveis inclusive pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. Ainda que os trâmites desse Sistema necessitem de ajustes para fluírem com maiores eficiências, bons frutos já foram colhidos pelos usuários dos programas. Atualmente, via SUS, é possível ser beneficiado, por exemplo, pela sabedoria da Medicina Chinesa, Biodança, Cromoterapias, Apiterapia, Aromaterapia, Bioenergética, Constelação Familiar, Geoterapia, Hipnoterapia, Imposição de Mãos, Ozonioterapia, Terapia de Florais, Terapias Comunitárias e Yoga.


Todas as técnicas, aplicadas via SUS ou via terapeutas particulares, visam os cuidados com o corpo, mente e espírito, e conduzem à independência de medicamentos. Nesse artigo, tendo em vista o caráter terapêutico, a disponibilidade no SUS e o foco do nosso site, vamos nos ater aos benefícios trazidos pela prática do Yoga àqueles considerados idosos, pelas convenções.


Benefícios terapêuticos da prática durante o envelhecimento


Dentre as PICS, o Yoga tem sido uma das terapias cada vez mais procuradas. Utilizando-se de técnicas corporais, mentais e espirituais - posturas, respirações, meditação e relaxamento - as contribuições do yoga tem se mostrado relevantes na redução do estresse, na diminuição da frequência cardíaca e a pressão arterial, no alívio à ansiedade, depressão e insônia, e de forma geral, na melhora do equilíbrio, força e flexibilidade.


Embora seja recomendada aos idosos, a prática milenar de origem indiana faz parte do grupo de atividades físicas indicadas a qualquer tipo de pessoa, sem limitação por idade, sexo, peso, biotipo. Quanto mais cedo se der seu início, mais o indivíduo estará preparado para lidar com enfrentamentos futuros. A proposta está fundamentada no estímulo à autoconsciência, autocuidado e autotransformação.


Por meio das técnicas de execução de ásanas (posturas), pranayamas (exercícios respiratórios), meditação e relaxamentos, o praticante encontrará nele mesmo, com baixos custos, um imenso potencial ainda adormecido. Além das técnicas citadas, que geralmente são aplicadas nas sessões, que podem durar em média 60 minutos, o praticante pode se aprofundar e seguir os oito passos do Yoga Clássico, nos quais incluem-se as normas de comportamento pessoal e coletivo (Yamas e Nyamas).


No livro Autoperfeição com Hatha Yoga, escrito na década de 1970 pelo Professor Hermógenes, são diversos os casos patológicos enumerados e tratados com Yogaterapia. São situações nas quais as queixas versam sobre dores físicas, angústias, vícios, inseguranças, ansiedades, entre outras. Foram tantas as recuperações registradas no livro que poder-se-ia pensar que seria uma técnica voltada apenas ao resgate da saúde em pessoas doentes. Mas, conforme o autor já adianta, trata-se de uma terapia voltada à recuperação e manutenção da saúde em geral e que irá proporcionar a melhora na qualidade do trabalho, na defesa contra a fadiga e estresse, sem o esforço excessivo, pois deverá ser executada conforme os limites de cada um.


No estudo Yoga e Envelhecimento: contribuições sobre a prática do Yoga na percepção de idosos de Fortaleza, CE, feito com um pequeno número de praticantes, para investigar a percepção dos idosos sobre a prática do Yoga e suas apreensões acerca do envelhecer, concluiu que a atividade foi percebida como uma experiência potencializadora da vida e uma possibilidade para o envelhecimento satisfatório. A prática é entendida como possibilidade de vivência do tempo livre e como fonte de equilíbrio, paz e força interior tendo possibilitado aos participantes o fortalecimento para sentirem-se capazes de enfrentar obstáculos e limitações diante do processo de envelhecimento. Dentre os benefícios apontados, destacamos:


“Estou aprendendo a olhar para mim e entendendo que é bom se cuidar. Acho que o Yoga tem me ajudado muito a desapegar dessa ideia de viver apenas para o trabalho. Yoga tem o poder de transformar a vida da gente, e essas mudanças não ficam só dentro da gente, elas inspiram pensamentos positivos que vão para fora, alcançam também os outros, e plantam uma semente que rende frutos do bem”


Assim, os benefícios produzidos pela prática, conforme a pesquisa citada, voltavam-se às respostas cognitivas, ao equilíbrio das funções físicas e mentais, diminuição das limitações, potencialização da consciência corporal e da autonomia durante o envelhecimento, além das sensações inerentes às atividades físicas, em geral. Outros benefícios foram observados a partir da compreensão da prática como atividade estimuladora de autorrealização, alegria, satisfação, leveza, força e vitalidade.


Outro estudo voltado à análise do Yoga no tratamento de ansiedade e depressão em idoso, a partir de uma revisão de literatura, concluiu que a prática se configura como uma alternativa bastante viável no combate às essas patologias e dentro de um curto prazo, possibilitou a promoção do bem-estar emocional e espiritual dos praticantes. Assim, a implementação do Yoga é apontada como uma importante ferramenta no manejo da saúde mental.


Enfim, seja como uma medida restauradora da energia e da saúde em uma condição já debilitada, ou como preventiva e mantenedora de seu bom estado, o Yoga está aí, para ser usufruído por qualquer um. Sem exigir equipamentos específicos ou altos investimentos a prática nos permitirá experimentar algo que está guardado em cada um de nós. Em outra metáfora, podemos entender como um pequeno frasco do elixir da vida que ao ser aberto, envolverá o indivíduo em imensa alegria e bem-estar. Em termos culturais, seremos preenchidos por uma infinita sabedoria.


Em termos de envelhecimento, como diria um sábio filósofo: tem que se cuidar!


Então, os convido a essa experiência da prática do Yoga, enquanto o tempo assim nos permitir.


Om Shanti.


Referências

Hermógenes, José. Autoperfeição com hatha yoga um clássico sobre saúde e qualidade de vida.


Moura, Levi Nogueira. Duarte Neto, Aquilino Mota. Rathke, Cesar Augusto de Freitas. Silva, Luisiane de Avila. Os impactos do yoga no tratamento de ansiedade e depressão em idosos: uma revisão de literatura.


Oliveira, Maria Elma de. Moraes, Laís Duarte de. Filgueira, Leila Maria de Andrade. Lima, Paula Pamplona Costa. Martins, José Clerton de Oliveira. Yoga e Envelhecimento: contribuições sobre a prática do Yoga na percepção de idosos de Fortaleza, CE.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). Envelhecimento ativo: um projeto de política de saúde. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/envelhecimento_ativo.pdf





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