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YOGA E A HARMONIA OCULTA

  • Foto do escritor: Marcelo Augusti
    Marcelo Augusti
  • 20 de nov. de 2024
  • 4 min de leitura

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Aí está o sol: você pode parar diante dele com os olhos fechados e dizer que ele é escuro. Às vezes também acontece de você abrir os olhos, mas a luz é tanta que se fica temporariamente cego. É luz demais para suportar, é insuportável — subitamente tudo escurece. Os olhos estão abertos e o sol está aí, mas ele é demais para os seus olhos e você apenas vê a escuridão (Baghavan Shree Rajneesh - Osho)



A natureza, em sua infinita variedade de formas e nomes, traz em si, o contraditório como uma de suas características intrigantes. Compreender a vida é entender as suas contradições. Mas para quem não as compreende, a vida é um paradoxo.


Paradoxo significa dizer que tudo consiste numa aparente incompatibilidade. A contradição afirma que algo não pode ser e ser no mesmo sentido e ao mesmo tempo. Desse modo, duas afirmações, quando juntas, e que geram conclusões contrárias e concorrentes, constituem-se em uma incompatibilidade lógica, ou num paradoxo.


Um paradoxo é um enigma. Enigma é algo de difícil compreensão, quase indefinível, que exige grande esforço cognitivo para se conhecer a fundo, pois caracteriza pela ambiguidade. Ou seja, um enigma apresenta mais de um sentido e, suas proposições são incoerentes, por isso, torna-se difícil interpretá-lo pela lógica.


O filósofo Heráclito de Éfeso, no séc. V a.C., afirmava que “a natureza ama ocultar-se”. Ele dizia que a natureza é constituída pelo contraste dos opostos: dia/noite, ativo/passivo, retração/expansão, movimento/repouso, amor/ódio, masculino/feminino, etc. Compreender essas relações opostas, mas que se complementam, era perceber que a harmonia se oculta naquilo que parece contraditório.


Considerando que nem tudo é o que parece ser, como podemos perceber a harmonia que se oculta nas contradições da existência? Como é possível “ver além das aparências”?


Harmonia é plenitude. E plenitude é algo superior ao mundo das aparências e das contradições. Como se trata de algo superior, a plenitude não pode ser percebida pela razão, tampouco explicada pela lógica. Perceber a harmonia oculta, é ingressar em uma realidade superior ao mundo das aparências e das explicações. E o que é superior não pode ser reduzido ao inferior.


Embora a lógica não alcance e não explique, se estivermos receptivos à experiência da harmonia oculta, de certo sentiremos que “algo aconteceu”. Um “algo além” que, se rejeitarmos, por não conseguirmos explicar racionalmente sua ocorrência, estaremos recusando a comunhão com a plenitude.  


Penetrar nesta realidade superior, onde a plenitude se encontra, não é uma questão de seguirmos algum passo-a-passo descrito em livros, ou algum método aprendido em algum curso. Trata-se de um “salto” para o nível superior, pois não há pontes que ligam o inferior ao superior, não há uma “passagem”, porém, um vazio. Por isso, não é possível “dar passos” em direção a plenitude, pois há um abismo entre o superior e o inferior.


E não há explicação lógica para a ocorrência deste “salto”. Ele apenas acontece, é um acontecimento repentino, sem que saibamos, de fato, sua origem. A isto se denomina intuição, ou como podemos dizer, um súbito lampejo da consciência, uma revelação “sobrenatural”.


Intuição é um momento fugaz de extraordinária compreensão dos elementos e suas relações adequadas, que mostram-nos claramente “a coisa tal qual ela é”, e então, percebemos a essência para além da aparência.


A intuição é o “salto” do nada diretamente ao Divino; é penetrar o reino do incognoscível. O incognoscível não é algo desconhecido e que poderá ser conhecido. Incognoscível é aquilo que não pode ser alcançado e explicado pela razão.


O incognoscível é a expressão máxima da sensibilidade. Ele é percebido, mas não conhecido. A intuição é um “absurdo”, o que vale dizer que ela não se acessa pelos nossos sentidos, por isso ela é sem sentido, um “absurdo”.


A intuição é inconcebível, pois não liga um ponto a outro, não é linear, não se faz por etapas, não segue métodos, não deixa rastros; é um “salto” no vazio. A intuição só é possível, pois o incognoscível é real; ele existe, independente do que pensamos a respeito.


Os sábios autorrealizados alcançaram a sabedoria da vida por meio de tapas (práticas de austeridades), como o autocontrole dos sentidos e o autodomínio da mente. É assim que eles decifraram os enigmas da existência e os paradoxos da vida: permanecendo estáveis no yoga, perceberam claramente a harmonia que se oculta em toda forma de vida.


É o princípio da vida, a centelha divina – o Brahman Supremo – que se oculta em todas as manifestações; é esta presença absoluta e infinita que faz do Universo um acorde perfeito. Mas a sinfonia do Cosmos, esta consonância insuperável e inexplicável, somente poderá ser percebida claramente quando abandonarmos o “ver para crer” pelo “crer para ver”. Há de ser ter uma confiança absoluta para que o Inefável se revele.


Aquele que não compreende a contradição, que não supera a aparência e a superfície, incapaz de perceber a harmonia que se oculta na diversidade, está apartado da Realidade. Como inscrito no Bhagavad Gita: “Aquele que Me vê em todos os lugares e vê tudo em Mim, este nunca se separa de Mim, nem Eu me separo dele.” (BG, 6,30).


A Divindade é incognoscível, indefinível, incompreensível, contraditória; ela desafia a lógica e a razão, pois é superior, infinitamente superior a qualquer tentativa de capturá-la no emaranhado de nossos conceitos. O Divino é Harmonia e Plenitude.


Para que a harmonia oculta se revele a nós, temos que ser transparentes; temos que nos despojar do egoísmo, dos conceitos, dos preconceitos e preceitos. Pois nada se reflete na escuridão de um porão cheio de entulhos.


Yoga é a compreensão das contradições da vida. Yoga é harmonia. Estude, pratique.


Hari Om Tat Sat.

 

 

A intuição é possível porque o incognoscível existe. A ciência nega a existência do divino porque afirma: "Só existe uma divisão: o conhecido e o desconhecido. Se existe algum Deus, vamos descobri-lo por meio de métodos de laboratório. Se ele existe, a ciência vai descobri-lo.". Os místicos, por outro lado, afirmam: "Não importa o que você faça, alguma coisa no próprio fundamento da existência vai permanecer incognoscível — um mistério." E se os místicos não estiverem certos, então eu acho que a ciência irá destruir todo o significado da vida. Se não existir mistério, todo o significado da vida será destruído e toda a beleza será destruída. (Baghavan Shree Rajneesh – Osho)

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