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O QUINTO YAMA: O DESAPEGO

  • Foto do escritor: Vanice Jeronymo
    Vanice Jeronymo
  • 28 de set. de 2022
  • 4 min de leitura

O desapego, de forma geral, desbloqueia espaços físicos e emocionais e nos torna ágeis, leves e livres



Hoje iremos refletir sobre Aparigraha, o quinto Yama. Ele está relacionado à prática do desapego. Assim como os Yamas anteriores, Aparigraha nos exige esforço e dedicação, que se darão durante processos difíceis, mas ao mesmo tempo transformadores e libertadores. Uma vez incorporada, de forma consciente, a prática nos garantirá a leveza que nela está contida.


Muitos dos modos de vida e dos estilos arquitetônicos contemporâneos se fundamentaram nesse conceito milenar, como, por exemplo, os minimalistas. Ludwig Mies van der Rohe, o arquiteto alemão que viveu entre os anos de 1886 e 1969 divulgou a expressão e o conceito do "menos é mais" para se referir à diminuição dos elementos arquitetônicos nos edifícios ou em seus interiores. O arquiteto se fundamentou no resultado mais sofisticado e econômico e no conceito que aliava simplicidade, despojamento e a adoção daquilo que seria apenas o estritamente necessário.


A escritora Francine Jay, autora do livro Menos é Mais (2016) que discorre sobre a prática do desapego e sustenta o modo de vida minimalista inicia sua obra com seguinte a frase:


"E se eu te dissesse que ter menos coisas pode fazer de você uma pessoa mais feliz?"


Para a autora, ter menos coisas significa ter mais liberdade, menos estresse. São vários os caminhos apontados por ela para uma vida mais equilibrada, dos quais destaca o usufruir sem possuir, viver com simplicidade, encontrar prazer no suficiente.


Marie Kondo, especialista em organização pessoal e autora do livro Arrume a sua casa, arrume a sua vida, se utiliza de interessantes métodos para incentivar o leitor a desapegar-se de coisas inúteis:


descarte tudo que não desperte alegria"; “a melhor maneira de descobrir o que realmente precisamos é nos livrar do que não precisamos”.


Greg McKeown, em sua publicação Essencialismo (2015), procura mostrar como vive, age e pensa a pessoa essencialista e a compara com a não essencialista. Entre tantos benefícios observados no ser essencialista, destaca a importância de estabelecer limites em vários aspectos da vida.


O monge budista Matsumoto Shoukei organizou o Manual de limpeza de um Monge Budista (2020), no qual apresenta métodos de limpeza cotidiana. O monge explica que


"remove-se sujeira para limpar os desejos mundanos. Assim, cada segundo de faxina é pleno de significado. Uma vida simples permite voltar-se para dentro de si e concentrar todas as energias em cada instante. Não é restrita aos monges - aliás, é essencial na sociedade moderna, que tanto privilegia a velocidade”.


O livro Nem anjos nem demônios: a humana escolha entre virtudes e vícios, que é uma conversa entre a Monja Coen (zen-budista) e o filósofo Mário Sergio Cortella nos diz que


"a vida em abundância não é a vida do excesso, do desperdício, da perda. A vida em abundância é a vida da suficiência”.


Enfim, são muitos autores de livros, diretores de filmes e de documentários que se debruçaram sobre tal postura, sob uma ótica ou outra, pois o hábito de acumular o que não nos serve mais nocivo e tem sido recorrente entre as pessoas. Muitas vezes nos pegamos comprando mais coisas para organizar coisas que não utilizamos. Por exemplo, compramos caixas organizadoras, pastas e armários para entulhá-los com coisas que não precisamos mais. Fazemos isso porque não conseguimos ainda nos desapegar do que não nos tem serventia.


Existem inúmeros fatores que atrapalham a prática do desapego, e um dos mais difíceis de se vencer é o apego à matéria por motivos afetivos. Precisamos avaliar com atenção tudo o que realmente precisamos manter e se o que está guardado nos traz alegrias ou apenas entulha nossos armários e vidas. Para cada situação, existe uma reflexão, uma conduta, uma prática a ser adotada que irá nos ajudar a tomar a decisão certa, na hora certa.


Livres da responsabilidade de lidar com tantas coisas materiais, diminuiremos as preocupações e transitaremos mais facilmente de um lado para outro. O desapego, de forma geral, desbloqueia espaços físicos e emocionais e nos torna ágeis, leves e livres. Em ambientes, mentes e corações livres é que a energia encontra espaço para circular e assim, contribuir para que tomemos melhores decisões e cultivemos melhores pensamentos.


Algumas práticas e exemplos da vida com o desapego:


O vazio taoísta

O Taoísmo acredita no vazio e na forma simples e natural de se conduzir a vida. Nesta filosofia, a meditação é o caminho para o esvaziamento da mente. Livres dos sentimentos como desejos, expectativas, conceitos, julgamentos, apegos, angústias, ressentimentos, permitiremos o esvaziamento do corpo das tensões e dores e tudo o que puder obstruir o fluxo da vida. Os mestres taoístas indicam que se percorra a vereda constituída pela humildade, pelo equilíbrio da vida com a natureza, pela simplificação da vida e pela preservação da afetividade e das relações.


Mandalas tibetanas

Os monges tibetanos utilizam-se de técnicas bastante interessantes para o desenvolvimento da prática do desapego. Entre elas, as mandalas construídas sobre alguma base com areias coloridas. Estas práticas fazem parte do seu próprio aprendizado. Os monges memorizam textos que especificam proporções e posições que formatarão a estrutura básica da mandala. Dedicam-se horas a essa construção, com muita atenção e concentração.

Após toda a dedicação chega-se ao resultado final: uma peça com resultado plástico de singular delicadeza e beleza. Porém, imediatamente após a finalização ocorre o desmantelamento intencional das mandalas. Simplesmente são destruídas. Este é o principal ensinamento da arte de fazer mandalas na areia: tudo na vida é impermanente e o apego a qualquer objeto, coisa, pessoa, animal, ideia, costume, estilo de vida, conhecimento – enfim, o apego a tudo o que está sujeito à gênese condicionada, gera sofrimento, aflição, angústia, preocupação, ansiedade.


Associação da felicidade com pessoas ou objetos

Associar nossa felicidade com objetos ou com pessoas é uma atitude comum entre nós. Mas, ainda que amemos os que nos cercam e nos sentimos felizes após comprarmos objetos que julguemos necessários para nossa vida, a felicidade dependerá unicamente do que estiver dentro de nós. Não podemos atribuir nossa felicidade ou tristezas à ausência de nada e nem de ninguém em nossas vidas. Sentimos saudades de quem está longe, de quem já se foi, do que já tivemos em outro momento da vida, mas a felicidade e a tristeza moram em um único lugar: dentro de cada um!


Cabe a nós compreender a impermanência e transitoriedade da vida e festejá-la!


Om Shanti.





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