BREVE INTRODUÇÃO SOBRE TREINAR E COMPETIR
- Marcelo Augusti

- 8 de nov.
- 5 min de leitura

Correr não é apenas ganhar ou perder: é um processo de transformação pessoal, é aprender a ser resiliente, é cultivar uma mentalidade para manter-se constante, confiante e disposto a novos desafios.
O treinamento desportivo é um processo pedagógico orientado para o alcance do melhor desempenho do atleta em sua modalidade.
Nesse processo, os exercícios físicos são as ferramentas básicas que constroem o sólido alicerce onde se erguem as pilastras da preparação atlética ao longo dos anos de treinamento.
Desde os mais remotos tempos, a preparação desportiva apresenta uma estrutura cíclica, onde se alternam treinos intensos ou de maior volume, com momentos de recuperação adequada.
Um ciclo de treinamento, ou seja, um espaço de tempo onde os meio e métodos de treinamento são aplicados de forma contínua e progressiva, promove uma diferença marcante na capacidade de desempenho do corredor entre os estágios inicial, intermediário e final.
Assim compreendido, um ciclo de preparação deve prever a variedade dos estímulos de treinamento, partindo-se sempre dos exercícios gerais e simples aos mais específicos e complexos, do volume (quilometragem percorrida) para a intensidade (ritmo de corrida), e observando-se, de modo geral, a regra de Bowerman: “após um dia difícil, segue-se um dia fácil”.
A competição atlética é um aspecto a mais do treinamento desportivo, que tanto pode ser um momento de avaliação e ajuste, ou o ápice da preparação. Ela é a manifestação do estado de treinamento e da forma esportiva, e jamais deve ser vista como uma ameaça à autoestima e autorrealização do atleta. Compreender sua natureza lúdica, porém lúcida, é torna-la um evento atraente, que pode ser uma fonte de alegria e satisfação.
A competição, portanto, por mais que se dedique aos treinamentos e seja o objetivo da preparação, nunca deve ser encarada como um fim em si mesmo, porém, como uma oportunidade para testar, medir e avaliar o estágio em que se encontra o corredor, possibilitando eventuais ajustes na preparação, a partir de elementos comparativos e que possam servir de parâmetros confiáveis para a evolução da aptidão atlética e do alcance da melhor performance possível.
Para que a competição seja esse algo lúdico, lúcido, atraente, alegre e prazeroso, se faz necessário que o corredor saiba reconhecer as três fases básicas do treinamento. Esse reconhecimento é fundamental, seja para evitar frustrações pós-eventos, evitar treinos equivocados que podem causar lesões ou alimentar expectativas irreais sobre o desempenho.
As três fases do processo de treinamento esportivo dizem respeito aos aspectos relacionados ao condicionamento atlético do corredor, ou seja, em que nível de treinamento ele se encontra no início da preparação. Essas três fases são:
1) treinar para treinar, ou seja, quando o corredor está iniciando a sua jornada no esporte ou retornando aos treinos após um período afastado, onde ele necessita elevar o nível de sua aptidão física, alcançando uma condição suficiente para suportar as cargas de treinamento específicas da sua modalidade competitiva, e minimizar o risco de lesões;
2) treinar para competir, isto é, quando o corredor, elevando o seu condicionamento ao “estado de treinamento”, alcançou um nível consistente em sua aptidão atlética, encontrando-se apto a suportar elevados volumes e intensidades de cargas específicas, que atendam, satisfatoriamente, às exigências mínimas das disputas competitivas de sua modalidade;
3) treinar para ganhar, é quando o atleta alcança a “forma esportiva”, ideal conforme os padrões exigidos de sua modalidade e categoria competitiva, de modo que ele esteja apto a realizar as tarefas mais árduas da preparação, superar as barreiras psicológicas e ser capaz de elaborar estratégias coerentes de competição, estando próximo ou realizando a sua melhor performance, para a obtenção de resultados.
É importante destacar que performance e resultado são coisas distintas. Performance é o desempenho atlético, ou seja, é a execução ótima das capacidades de realização física, técnica, mental e estratégica do corredor, no contexto da competição.
Resultado é a colocação final do corredor na prova, seja sua posição no geral ou em sua categoria. Nem sempre o resultado competitivo reflete a melhor performance esportiva, pois depende do nível técnico da competição. Assim como, nem sempre a melhor performance garante a melhor colocação nas disputas competitivas.
Logo, pensar em treinamento e competição para corridas, é saber elaborar as condições ideais de preparação, de acordo com as particularidades e virtudes de cada atleta, conforme as fases do treinamento e as circunstâncias específicas do contexto da preparação e das competições.
A performance esportiva e o resultado competitivo no treinamento de corrida, portanto, se realizam pela conexão e harmonia entre os aspectos da preparação física, técnica, tática e mental, que são as bases do condicionamento atlético para enfrentar os mais variados desafios dos treinos diários e as mais duras disputas competitivas.
Considerando-se o que foi dito, todo atleta ou corredor necessita de uma preparação que leve em conta, impreterivelmente, os aspectos gerais e específicos de sua condição inicial, seu contexto de treinamento, sua treinabilidade e suas metas de performance e resultados.
O que é o treinamento personalizado em corridas?
A abordagem personalizada em corridas é caracterizado por um programa de exercícios físicos que atenda às necessidades e condições específicas de um indivíduo, considerando seu nível de condicionamento, experiência em treinos e competições, suas metas e objetivos, estado geral de saúde e histórico de lesões, suas limitações e potencialidades ainda não reveladas.
A orientação personalizada na preparação das corridas e, consequentemente, a prescrição dos exercícios e a escolha e distribuição dos meios e métodos de treinamento, é fundamentada pelas leis biológicas e princípios pedagógicos do treino esportivo: individualização biológica, adaptação, treinabilidade, interdependência volume-intensidade, controle das cargas, continuidade, especificidade e, o mais importante, o princípio da saúde, pois sem ela, o atleta/corredor não existe.
O que se busca no treinamento personalizado é maximizar o desempenho esportivo, minimizar os riscos de lesões e alcançar o estado de motivação ideal para se manter a constância nos treinos e o propósito da preparação.
Portanto, em um grupo de corredores, cada um deles terá o seu programa de treinamento individualizado, ainda que muitos aspectos da preparação sejam de caráter geral e coletivo.
Isto significa que, em um grupo de corredores, mesmo que o treino seja compartilhado, por exemplo, uma corrida de 1h de duração para todos, cada um deles realizará o exercício em seu próprio ritmo, ajustado de acordo com avaliações prévias, que indiquem a sua condição atual.
Além disso, o treinamento personalizado, devido à sua flexibilidade, pode ser adaptado a diferentes locais e condições, não necessitando, obrigatoriamente, de equipamentos sofisticados, academias de musculação e demais acessórios.
Afinal, a corrida é uma modalidade esportiva que se faz ao “ar livre”, e muitas são as possibilidades oferecidas pelo próprio ambiente em que se pratica.
Corrida é para quem vive de bem com a vida. Corra e seja feliz!




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